O Natal estava chegando e um sentimento esquisito começava a tomar conta da casa. Afinal, todos os 11 moradores de uma das “repúblicas de brasileiros em Breckenridge, Colorado” estavam muito (bem) acostumados a estar junto da família nessa data tão, digamos, clássica.
Com meu primo Felipe e eu não era diferente. Pelo contrário, talvez com nós dois isso fosse ainda mais intrínseco. A nossa família é assim: passa todos os feriados junto e, quando não há feriados, se junta nos finais de semana (que sejam!) mesmo e pronto. É coisa antiga. Alguns chamam de tradição. Eu não. Eu gosto de chamar de amor, de necessidade de estar junto, de vontade de saber do outro e de trocar conhecimentos, sentimentos e valores com o outro. Verdade. Os feriados e finais de semanas que passamos juntos são verdadeiros momentos de aprendizado e troca. Podem parecer normais para quem vê de fora, mas não para nós. Todos nós sabemos bem o que esse tempo junto quer dizer e os poderes que ele têm. E tenho certeza de que todos os membros da família, da vovó ao neto mais novo (se, no auge dos seus nove meses, ele soubesse ler, claro!), concordariam comigo: é tudo muito especial.
E, pela primeira vez em nossas vidas, Felipe e eu não faríamos parte da tão antiga ceia de Natal na casa da vovó Dejanira. Desfalcaríamos o time. Nós e o vovô, como vovó bem lembrou no telefonema que fizemos na hora da ceia aqui no Brasil: “tem três pessoas faltando aqui, vocês e o Pedrim”. Que nó no peito deu em nós dois quando ela, tão bonitinha, disse isso! Quando estávamos nos EUA, era só falar dele pra Felipe e eu nos olharmos com aquela cara indecifrável de quem perdeu alguém e sente saudades constantes.
Como eu disse, todos os moradores do A202 no Ski & Racquet Club, em Breckenridge - Colorado, estavam acostumados a passar o Natal com a família (grande ou pequena). Para não deixar a data virar silêncio e saudade por toda a casa, combinamos de fazer uma ceia de Natal. Chamamos nossas três vizinhas (Ani e Maria, da Bulgária, e Jenni, dos EUA), que àquela altura já haviam se tornado amigas e companheiras em tudo, e elas adoraram a idéia.
Lembro bem desse dia. Enquanto eu trabalhava no Denzaemon, o pessoal foi ao supermercado e comprou todos os ingredientes necessários para cozinhar o nosso cardápio. Quando cheguei em casa, a cozinha estava uma bagunça e a maioria das coisas, já pronta: macarrão com molho de carne moída e macarrão à carbonara (feitos pelo italiano-brasileiro Riccardo, com a ajuda de Nikoly), um peru, um pedaço generoso de carne de porco (feito pelo cozinheiro da casa, o Bonesi) e pimentas verdes muito grandes, recheadas com carne moída, arroz e outras coisas até hoje desconhecidas (trazidas pelas vizinhas). Estava tudo uma delícia. Mas, com uma exceção para os brasileiros: impossível comer as pimentas, eram apimentadas de verdade. E pior: não podíamos fazer cara feia e nem deixar no prato, porque não queríamos deixar as meninas sem graça. Até que, ao comer, Chico ficou com o rosto vermelho, chegou a chorar e bebeu litros de água para a ardência passar. Nessa hora as gringas perceberam que não estávamos acostumados com tanta pimenta e todo mundo morreu de rir.
E, quem diria, o primeiro Natal longe da família e de Muqui foi inesquecível. Isso porque foi o primeiro de alguns que vêm por aí (sim, sempre fazendo planos) e, além disso, foi marcante porque eu estava em um lugar especial com pessoas “desconhecidas” que fizeram a data ser muito divertida.
Tenho certeza de que aquela noite marcou não só a mim, mas a todos nós.
Um dos vídeos totalmente malucos gravados na ceia de Natal.
Eu bisbilhotando o cozinheiro, Bonesi.
Bonesi quase atacando a ceia prontinha
Ceia de Natal: 10 roomies e as três vizinhas
Aglomeração em volta da mesa
O brinde dos meninos
Atacando a mesa!
Resultado do Amigo-choco
Para registrar
Todos nós na sala de estar
As três vizinhas e eu
1 comentários:
Minha boca queima até hoje com a pimenta, e eu quero voltar amanhã e fazer tudo de novo. :(
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