A situação na casa estava começando a ficar tensa. Até o dia 20 de dezembro, só a Cintia tinha conseguido emprego, num restaurante japonês. Anne e alguns dos meninos começaram a pensar sobre mudar para outro estado em busca de emprego. Mas, para nossa esperança, Nikoly se cadastrou para trabalhar em um evento e foi chamada. Eram só quatro dias, mas o salário era de $22/hora e a empregadora disse que assinaria a job offer (documento que temos que mandar para o governo, para provar que estamos trabalhando nos EUA). O que ela iria fazer? Tinha um evento na praça de Breck e vários estandes. Nikoly trabalharia no da Toyota ao lado de outra “modelo”, tirando fotos com os visitantes, num cenário montado na carroceria de uma caminhonete da marca. Eles forneceram o uniforme: uma calça térmica preta muito justa, um casaco branco, uma luva branca e uma faixinha de cabelo vermelha.
No primeiro dia, uma quinta-feira, Nikoly chegou em casa quase morta, dizendo que o trabalho tinha sido difícil, pesado demais, por causa do frio. No segundo dia, chegou passando mal, meio congelada, só querendo ficar deitada. No terceiro, de manhã, ela vestiu a roupa e fomos para a Main Street juntas – ela para o trabalho e eu para procurar emprego. Mas, quando chegamos no local do evento, ela se deu conta de que não conseguiria trabalhar naquele dia. Perguntou se eu queria substituí-la. Eu, que não tinha emprego nem nenhuma perspectiva de contratação, só consegui pensar na grana e no aluguel que venceria em poucos dias. Lógico, aceitei. Digo “lógico” agora, que estou no meu quarto, sentindo até calor. $22/hora só para tirar fotos com as pessoas? Todo mundo que ler isso vai pensar “é claro que eu aceitaria o emprego!”. Mas, o emprego não era só isso: tive que passar SETE HORAS seguidas a céu aberto, com um vento muito forte (que quase levantou os estandes várias vezes) e neve caindo na minha cabeça sem parar – a temperatura era de 22ºC negativos.
Você consegue imaginar o que é passar sete horas a céu aberto, com muito vento e neve, na temperatura de -22ºC e ainda por cima vestindo pouca roupa? Não responda que sim. Eu também achei que conseguiria, mas se eu não tivesse passado por aquilo, juro que não saberia como é. É um frio que não dá pra explicar, pra imaginar, pra descrever. Juro que só agüentei porque estava pensando no dinheiro, mas sabia que grana nenhuma no mundo pagaria aquele sofrimento. Eu congelei: parei de sentir meus pés, minhas mãos e meu rosto. Tudo doía muito, até respirar. Estava trabalhando com uma loirinha americana. Ficamos sete horas grudadas e não sabemos nada uma sobre a outra. Isso porque era tão frio, doía tanto ficar ali, que não conseguíamos conversar. Ficamos as duas quietas passando frio em silêncio e pronto. Guardamos as poucas palavras para os visitantes – em sua maioria, homens, porque deveríamos ser simpáticas com eles e sorrir para a foto.
Lembro que tinha 15 minutos de horário de almoço. Estava faminta, mas preferi me trancar num lugar com aquecedor a sair andando na rua em busca de comida. Naquele dia, almocei uma barrinha de cereal. Eu só conseguia fazer contagem regressiva das horas. No começo, a cada 10 minutos que passavam eu já ficava mais aliviada: menos 10 minutos de sofrimento. Toda hora eu dava um jeito de perguntar a hora para alguém, mas, cheguei ao ponto de nem querer saber mais quanto tempo faltava para aquilo terminar. Só queria ir para um lugar quente.
Confesso que nesse dia eu pedi para morrer. Sério, não estou exagerando. Pedi. Já me arrependendo, mas pedi. Eu só queria sair dali, mais nada. E, quando a chefe disse que estava na hora de ir embora, eu e a loira americana nem sequer nos olhamos. Nada. Saiu cada uma para um lado, desesperadas, em busca de um lugar, qualquer lugar, quente. Eu saí igual a uma louca andando por um caminho pelo qual nunca tinha andado. Acabei encontrando a Main Street e saí do lado do Starbucks. Quando vi aquela casinha amarela com detalhes verdes quase morri: entrei e pedi um chocolate quente. Demorei para conseguir tirar a luva e para pegar o dinheiro, porque minhas mãos estavam congeladas. Falava igual a uma doente, porque as bochechas e o queixo estavam congelados. Saí de lá com metade do chocolate ainda quente e ainda tive que ficar uns 20 minutos esperando o ônibus. Percebi que estava com cara de louca quando um menino passou por mim e perguntou “are you ok?” e eu respondi com o “yes, thanks” mais mentiroso da minha vida.
Cheguei em casa, fiquei um tempo me esquentando na sala, tirei a roupa, tomei um banho de banheira com água fervendo que deve ter durado quase uma hora. Depois, Rafa me salvou e fez janta para mim. Estar no quentinho de novo foi uma das maiores sensações de alívio que já senti na vida.
Quando falei para os meus pais o que tinha feito, minha mãe me fez jurar que não trabalharia desse jeito de novo nem se fosse para ganhar mil dólares por hora. Na hora prometi convicta: não queria passar por aquilo tudo nunca mais na minha vida. Agora que estou no calor de Vitória, dá até vontade de considerar a possibilidade. Mas, quando lembro do sofrimento que foi, posso garantir: não vale a pena fazer o que fiz por dinheiro nenhum no mundo. Para você chegar ao ponto de pedir para morrer, desmaiar, ou qualquer outra alternativa maluca que te faça parar de sentir dor, é porque o negócio é feio.
OBS.: O dia 21 de dezembro ficou marcado como o pior dia da minha vida - em termos físicos. E, depois de tanto sacrifício, a empregadora enrolou para pagar o salário. Só fui ver a cor do dinheiro em março.
5 comentários:
SUAS MÃES FICARAM CONGELADAS!!! OU MAI GODE!
e não se usa mais trema ;p
sim, só podia ser eu fazendo esse tipo de comentário, adoro ler seu blog
(L)
Geeente, o máximo de frio que senti foi no Sul e em Alegre :X
uhuishauihsuia
mas espero NUNCA passar por isso. ODEIO frio! calor de cachoeiro pra sempre :]
:***
HAhuaHUAhu
O pior disso tudo é você contar pros outros e ouvir "Ah, isso é frescura... Claro que dá pra aguentar!"
¬¬
Só ficando lá pra ter noção, né? rs
;o*
HAhuaHUAhu
O pior disso tudo é você contar pros outros e ouvir "Ah, isso é frescura... Claro que dá pra aguentar!"
¬¬
Só ficando lá pra ter noção, né? rs
;o*
Óoootimo post, Paulinha! Ta de parabens! ahiuahuiahiuahuhaiu ;x
e nao tem sistema de tags aqui no blogger nao?? Pq se tiver, ja ta mais que na hora de vc usar a tag Cintia!!;p
Postar um comentário